Coluna da Vovó

Cruzeiro dourado

    Luiza, 88 anos – “ No ano de 1997 completei cinquenta anos de casada. Como de costume, em todas as datas comemorativas, meu marido planejava algo especial. Para nossas bodas de ouro, ele pensou em algo diferente, uma viagem que ainda não havíamos realizado: um cruzeiro. Viajar de navio estava começando a ganhar notoriedade no Brasil e não haviam muitas empresas que vendiam pacotes. Essa ideia surgiu quando ele viu um folheto da empresa Premier Cruises em uma agência de um conhecido. Seus barcos vermelhos faziam cruzeiros para Bahamas, a partir de Fort Lauderdale, e nesse ano foi lançado um navio que navegava durante sete dias por algumas ilhas caribenhas.

Premier Cruise    O porto de Aruba era considerado o maior do Caribe e foi o nosso ponto de partida. O navio Seawind Crow parava nas ilhas: Curação, Santa Lucia e Barbados. A cada dois dias navegando, atracávamos no porto da cidade e tínhamos algumas horas para visitá-la. Em nossa primeira parada, conhecemos Curação e seu vilarejo de casas coloridas. Em Caracas tivemos a oportunidade de conhecer um fábrica de Murano. Nosso guia nos levou para acompanhar todo o processo de criação e após isso, adquirimos alguns souvenirs de lembrança. Em Santa Lucia, visitamos uma lagoa azul que muitos diziam que o filme “A Lagoa Azul” havia sido filmado lá.

   Em uma das nossas noites no navio, durante o jantar com o comandante, houve surpresa para os casais que comemoravam aniversário de casamento. Todos  foram convidados para ir a frente e renovar os votos. Houve uma missa simbólica e após a cerimônia, um jantar de comemoração. Muitos casais, de diferentes nacionalidades, nos cumprimentaram pelo nosso aniversario. Tenho ótimas recordações daquela viagem e não imaginava que marcaria tanto a minha vida. Foi a última viagem realizada com o meu marido e logo após o nosso retorno, ele já começou a dar sinais de Alzheimer. Viajar é isso, recordar bons momentos e é a nossa maior herança. Guardo para sempre na memória aqueles dias de muita comemoração”.

cruzeiroPS. Bon Voyage!

Berlim – Antes da queda

Coluna da vovo_Berlim 3    Luiza, 88 anos – ” No outono de 1973 fui para Alemanha pela primeira vez. O destino parecia um pouco inapropriado, devido as frequentes notícias que propagavam na rádio. A segunda guerra já havia terminado, no entanto resquícios da guerra fria emolduravam a cidade. Desde de 1961, a capital alemã possuía uma muralha separatista – o muro de Berlim. No entanto, meu marido argumentou que muitos países passavam por momentos com a situação instável e isso não era um obstáculo ao turista. Ele já conhecia Frankfurt e não via a hora de voltar a Alemanha.

    O nosso roteiro passava por algumas cidades da Europa, entre elas: Londres, Paris, Amsterdã, Suíça e, por fim, Berlim. A nossa viagem foi programada para ser realizada de carro e assim que chegamos em Londres alugamos o veículo que nos acompanharia durante todo o período. Minha neta questionou se era comum viajar de carro naquela época “respondi que não, mas seu avó era muito aventureiro”. Como não havíamos reservado hotel, não tinha uma quantidade exata de dias estipulada para ficar em cada cidade. Chegamos a Berlim, depois de uma longa viagem vindos da Suíça, Genebra. Algo que me chamou muito atenção, assim que cheguei em Berlim, foi como as alemãs eram elegantes, diferente do povo que já conhecia. Provável que essa soberania era um efeito da Alemanha Ocidental, capitalista. De um lado havia uma sociedade desenvolvida, que durante os anos de separação evoluiu progressivamente e, do outro lado, uma sociedade parada no tempo.

Coluna da vovo_Berlim 2

    Um dos principais cartões postais de Berlim era o Portão de Brandemburgo. O local era palco de diversas rebeliões e figurava-se como um símbolo da divisão entre a Alemanha Ocidental e Oriental. O muro passava em frente ao portão e somente os militares, que faziam a patrulha, podiam se aproximar do local. Provido de muita cara de pau, meu marido perguntou aos soldados se seria possível espiar do outro lado do muro. Um ponto importante é que ele não falava absolutamente uma palavra em inglês, tampouco alemão e, para minha surpresa, havia criado um grupo com alguns estrangeiros, que estavam no local, para espionar o lado Oriental. A persuasão do grupo, liderada pelo meu marido, foi vitoriosa e o soldado aceitou nos levar a um lugar plano com melhor visibilidade. Havia escutado algumas estórias de turistas que foram conhecer o outro lado do muro e nunca mais voltaram, isso me amedrontava. Estava apegada a esta lenda urbana e o pedido do meu marido parecia algo absurdo. O soldado nos acompanhou durante uma longa caminhada que parecia uma floresta. Chegamos a um ponto que havia uma escada de madeira que nos permitia ter acesso ao outro lado. A avenida Unter Den Linden continuava após o muro e o que se via eram pessoas andando com uma rotina normal de trabalho e sociável, sem terror ou opressão. Falsa impressão de uma turista deslumbrada em uma de suas maiores aventuras. Berlim ficou marcado para sempre na minha memória.

coluna da vovo_Berlim1

    E, ai viajantes, gostaram da historia da vo Luiza? Ela considera uma das maiores experiências de suas viagens.

PS. Bon voyage!

The Kodak Hula Show

vovo havai    “Costumávamos viajar para os nossos destinos sem reservar hotéis. Naquela época, isso era muito comum, pois só tínhamos essa opção via agência de viagens. Meu marido gostava de chegar ao destino e bater de hotel em hotel à procura de hospedagem. Era uma tradição em nossas viagens, mas na verdade eu acredito que ele fazia isso por puro divertimento. No Havaí, nossa missão foi relativamente mais fácil, pois havia pouquíssimas opções na orla. Paramos na porta de um prédio muito moderno (um dos únicos), pé na areia e meu marido resolveu descer. Alguns minutos depois, ele voltou muito feliz, pois havia encontrado vaga na primeira tentativa. O Hotel Sheraton foi o escolhido, com quartos grandes e espaçosos.

    Fiquei encantada com a ilha do Havaí. Nas ruas, homens e mulheres andavam com roupas floridas. Era um costume local confeccionar camisas e vestidos do mesmo tecido. Algumas famílias estendiam essa tradição para os filhos. Todos ficavam iguais, algo bem engraçado. Para se locomover na ilha, as opções eram buggy ou bonde. Nos alugamos um buggy para passearmos nas praias. Um dos pontos turísticos em que resolvemos parar foi o píer de Pearl Harbour. No local, muitas casas simples formavam um complexo de moradia para ex-soldados e enfermeiras que participaram da guerra. Nem sinal do espaço cultural que ha hoje no lugar.

     Em uma das nossas noites em Oahu, fomos assistir ao tradicional luau havaiano. Na época, o mais famoso era o The Kodak Hula Show, no Kapiolani Park. A marca fazia muito sucesso e patrocinava o show desde 1937. Não tinha muito glamour, tampouco jantares sofisticados. Todos os dançarinos eram nativos e estavam vestidos a caráter. Neste ano (2014), voltei para o Havaí com a minha família.  A cidade cresceu e muitos prédios surgiram ao redor da orla. Antigamente, o comercio se resumia apenas ao shopping Ala Moana e uma feirinha de artesanato. Hoje, houve uma invasão japonesa, logo capitalista na ilha. No entanto, uma coisa não mudou no Havaí: o respeito e a educação. A cidade ficou mais moderna, as pessoas não andam mais com roupas iguais, mas a hospitalidade ficou marcada para sempre na cultura desse povo”.

 PS. Bon Voyage!

Memórias de um figurino

Luiza, 88 anos – “Nos anos 70, o cinema americano já era referência em todo o mundo. Seus filmes tomavam as telas de todo o país e eram sinônimo de glamour e sofisticação. Ir ao cinema era uma das minhas programações preferidas. Meu marido e eu íamos toda a semana assistir as novidades que entravam em cartaz. Um dos primeiros filmes que vimos foi Ben Hur. Saímos exaustos depois de quase quatro horas de filme, mas para nós era diversão. Não existia filme passado na TV como hoje. As primeiras televisões chegaram ao Brasil em 1950, ano da Copa. Lembro que éramos os únicos no bairro que assistíamos os jogos de futebol transmitidos em preto e branco, uma grande festa com a família e vizinhos.

 Foi nessa década que fui para Los Angeles pela primeira vez. A cidade era austera, muito bonita e com pessoas elegantes e bem vestidas. Passamos alguns dias no local e me sentia em um cenário de filme. Uma das nossas programações, organizada pela agência, era o tour nos estúdios da Metro Goldwyn Mayer. A empresa era um sucesso na época, seus filmes eram sinônimo de qualidade, com elencos estrelados e grandes orçamentos. Anos depois, tornou-se a gigante da comunicação: MGM. O passeio durou o dia inteiro e tudo foi feito de trenzinho. Conhecemos diversos estúdios de gravações, carros antigos (usados em cena) e camarins. Lembro-me perfeitamente quando entrei em uma casinha utilizada como camarim de Lana Turner, uma das atrizes mais famosas em minha época. Pude tocar em todos os figurinos usados no longa “Imitação da vida” e fiquei encantada. Já tinha visto o filme nos cinemas e conhecer os bastidores foi algo memorável.

 Gostava muito de explorar a cidade caminhando. Muitas vezes, quando me interessava por algo no caminho, parava para conhecer. Foi isso que aconteceu quando avistei uma igreja enorme e linda em frente ao Echo Park. Parei para assistir o culto e fiquei emocionada com a quantidade de fiéis. Algum tempo depois, fiquei sabendo que a Angelus Temple foi a primeira igreja protestante de Los Angeles. Isso acontecia com frequência, a forma de turismo evoluiu muito com o passar dos anos, não havia comunicação como hoje. Quarenta anos depois, voltei para Los Angeles com a minha neta (Eu, no caso) e conheci uma nova cidade. O que mais me chamou à atenção foram as pessoas na rua, tudo tinha ficado diferente. O cenário havia mudado, saíram de cena os elegantes chapéus e entraram os cabelos coloridos e bonés. O mesmo aconteceu com os terninhos, foram substituídos por roupas rasgadas e curtas. Que saudades do figurino da atriz Lana Turner”.

Los Angeles montagem

PS. Bon Voyage!

Do Terno ao Kimono

Vó Luiza, 88 anos – ” Quando começamos a realizar nossas primeiras viagens, no ano de 1970, haviam pouquíssimas opções de companhias aéreas disponíveis no Brasil. A VARIG foi a primeira, mas operava apenas em rotas para América Latina e América do Norte. Para a Ásia, a única opção era a JAL, até então desconhecida. A companhia foi a primeira no Japão e nesse ano começou a realizar voos na rota São Paulo – Tóquio. Seu serviço era diferenciado, se destacava das demais. Diferente das refeições corriqueiras em aviões, a Japan Airlines oferecia comida típica japonesa aos passageiros. No nosso primeiro jantar, servido em porcelana japonesa e talheres de prata, comi peixe cru pela primeira vez. Antes de embarcar, as comissárias entregavam aos passageiros guias turísticos sobre todas as cidades que eram toda da companhia. De fato, viajar era algo mais glamuroso na minha época, tempos de ouro da aviação brasileira. Nos preparávamos com muita antecedência para a ocasião. No aeroporto, os homens utilizavam terno e gravata e as mulheres um modelo elegante, semelhante ao que usávamos em confraternizações.

foto-1

Meu sonho era conhecer o Japão. Me lembro que foi o primeiro país a ter trem bala em sua malha ferroviária. Após oito anos de funcionamento, tivemos a oportunidade de andar pela primeira vez.  O trem nos levou à Osaka, sede da Expo`70 e o passeio foi memorável! Depois de alguns dias, nosso destino era a cidade de Kobe. Seu movimentado porto, recebia navios vindos de todo o mundo e foi esse o meio de transporte que escolhemos. O trajeto, tinha como pano de fundo o monte Fuji. Ficamos muito eufóricos em avistar um cartão postal, a montanha mais alta e famosa do Japao. Quando chegamos a cidade, nos hospedamos em um hotel afastado do centro. O local preparou uma recepção muito típica para nossa chegada, oferecendo jantar e apresentações locais. Ainda me lembro quando uma funcionária do hotel entrou em nosso quarto para nos vestir com Kimonos.

 Bangkok também estava no nosso roteiro. Muito diferente das cidades japonesas, suas ruas eram estreitas e pequenas. O que me chamou a atenção, foram as casas de palafitas em torno do mercado flutuante. Devido a essa forma de se habitar, o rio era extremamente sujo e escuro. No entanto, os templos eram estrondosos. Sua fachada era toda revestida com micro pedaços de vidro, formando um mosaico. Em seu interior, o buda era referencia de riqueza”.

foto2

PS. Bon Voyage!